![]() |
| O início de um império: a chegada da CG 125 às lojas brasileiras |
Existem veículos que transportam pessoas, e existem veículos que transformam sociedades. A Honda CG 125 pertence ao segundo grupo. Lançada em meados da década de 1970, ela não foi apenas mais uma motocicleta no mercado; ela foi a ferramenta que democratizou o transporte individual no Brasil. Em um país de dimensões continentais e trânsito cada vez mais complexo, a CG 125 surgiu como a solução definitiva: barata, indestrutível e extremamente econômica. Ela se tornou a companheira de trabalho do entregador, o meio de transporte do estudante e a primeira paixão de quem descobria o prazer de sentir o vento no rosto.
Origem e história
A história da CG (sigla para Cash Generation, ou "Geração de Renda", refletindo sua proposta econômica) começou com a inauguração da fábrica da Honda em Manaus, em 1976. Até então, a maioria das motos era importada e utilizava motores de dois tempos, que eram barulhentos e exigiam a mistura de óleo na gasolina (como os carros da DKW que vimos anteriormente).
A Honda revolucionou ao trazer um motor de quatro tempos para uma moto pequena. A primeira CG 125 brasileira, carinhosamente chamada de "Bolinha" devido ao formato do seu farol e painel, foi o primeiro veículo produzido pela marca no Brasil. Ela foi projetada especificamente para aguentar as condições severas das nossas ruas e o combustível da época, estabelecendo um padrão de robustez que a concorrência levaria décadas para alcançar.
Período de maior popularidade
A popularidade da CG 125 é um fenômeno que atravessa décadas, mas seu impacto cultural consolidou-se nos anos 1980 e 1990. Foi nesse período que a moto deixou de ser apenas um lazer para se tornar uma ferramenta de trabalho essencial.
Com as sucessivas crises econômicas e a alta dos combustíveis, a CG tornou-se a escolha lógica. Nas décadas de 90, com a explosão dos serviços de entrega e a necessidade de agilidade urbana, ela se tornou onipresente. Não havia uma esquina no Brasil onde não se ouvisse o estalo metálico do motor Honda. Ela se tornou o veículo mais vendido do país, superando até mesmo os carros populares.
Características e funcionamento
A CG 125 foi mestre na "engenharia da simplicidade":
Motor OHV (Over Head Valve): Diferente das motos modernas, as primeiras CGs usavam comando de válvulas por varetas. Era um sistema mais simples e resistente ao calor e à falta de manutenção rigorosa.
Economia Extrema: Capaz de fazer mais de 40 km com apenas um litro de gasolina, ela era imbatível no custo por quilômetro rodado.
Câmbio Rotativo: Nas primeiras versões, o câmbio permitia passar da quarta marcha direto para o neutro com a moto parada, uma facilidade para o uso urbano intenso.
Manutenção "No Quintal": A mecânica era tão intuitiva que muitos proprietários aprendiam a regular o carburador e trocar o óleo em casa, o que reforçou sua fama de moto que "não deixa ninguém na mão".
Curiosidades
A Primeira a Álcool: Em 1981, a Honda lançou a CG 125 Álcool, a primeira motocicleta do mundo movida a esse combustível produzida em série, reforçando o pioneirismo tecnológico brasileiro.
A "Bolinha" e a "Today": Cada geração recebeu um apelido. Teve a "Bolinha" (1976), a "Quadrada" (1983) e a famosa "Today" (1989), que introduziu melhorias significativas no motor.
Valor de Revenda: Diz a lenda que uma CG 125 usada vale "dinheiro vivo". A liquidez do modelo é tão alta que ela é usada quase como uma moeda de troca em muitas regiões do país.
Recordista de Vendas: A linha CG é, até hoje, o veículo motorizado mais vendido da história do Brasil, com milhões de unidades produzidas.
Declínio ou substituição
Na verdade, a CG 125 nunca "morreu", ela evoluiu. O declínio da versão específica de 125 cilindradas ocorreu por volta de 2018, quando a Honda decidiu focar na CG 160. As leis de emissões de poluentes (PROMOT) tornaram os motores 125 carburados obsoletos.
Ela foi substituída por motores com injeção eletrônica, freios combinados (CBS) e maior cilindrada. No entanto, a essência da CG original permanece nos modelos novos, que continuam sendo os líderes absolutos de mercado. A tecnologia de varetas deu lugar ao comando no cabeçote (OHC), mas a filosofia de ser a moto para todo e qualquer serviço continua intacta.
Conclusão
A Honda CG 125 é mais que uma moto; é uma instituição nacional. Ela acompanhou o crescimento das cidades, gerou renda para milhões de famílias e foi a porta de entrada para o mundo do motociclismo. Se hoje o Brasil é um país que vive sobre duas rodas, o mérito principal é dessa pequena gigante japonesa com coração brasileiro.
