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⚽👟 Kichute: O TĂȘnis que Virou Chuteira (e Vice-Versa)

Ilustrução de um par de tĂȘnis Kichute pretos originais, visivelmente fustigados pelo uso.
 Pronto para o jogo: o calçado que aguentava o tranco da escola ao campinho.

Houve um tempo em que um Ășnico par de calçados resolvia a vida de uma criança da manhĂŁ atĂ© a noite. O Kichute foi mais do que um tĂȘnis; foi um fenĂŽmeno sociocultural brasileiro. Mistura de tĂȘnis de lona com chuteira de travas de borracha, ele se tornou o equipamento oficial de milhĂ”es de meninos que precisavam de algo resistente o suficiente para aguentar as aulas de matemĂĄtica e, logo em seguida, uma partida feroz de futebol no recreio. Sua importĂąncia reside na sua versatilidade absoluta e na sua durabilidade lendĂĄria, tornando-se o sĂ­mbolo de uma infĂąncia que nĂŁo tinha medo de ralar o joelho.

Origem e histĂłria

O Kichute foi lançado em 15 de junho de 1970, pela Alpargatas, aproveitando o clima de euforia da Copa do Mundo do México, onde o Brasil conquistaria o tricampeonato. A ideia era genial em sua simplicidade: criar um calçado popular que pudesse ser usado em qualquer ocasião, mas com um "DNA" de futebol.

Inspirado nas chuteiras profissionais da época, ele foi fabricado em lona preta com o solado de borracha vulcanizada repleto de travas redondas. O lançamento foi um sucesso imediato, impulsionado por campanhas publicitårias que associavam o calçado ao desempenho dos craques da seleção. O Kichute não foi apenas criado; ele foi adotado como o uniforme padrão da juventude brasileira.

PerĂ­odo de maior popularidade

A era de ouro do Kichute compreendeu as dĂ©cadas de 1970 e 1980. Ele se tornou popular por um fator pragmĂĄtico: a economia. Para muitos pais, comprar um Kichute era um investimento seguro, pois o tĂȘnis era praticamente indestrutĂ­vel. Ele servia para ir Ă  escola, para ir Ă  missa e, principalmente, para jogar "pelada".

Nas décadas de 70 e 80, o Kichute chegou a vender mais de 9 milhÔes de pares por ano. Ele era onipresente nos pés dos brasileiros, desde as periferias das grandes cidades até os vilarejos mais remotos do interior. O slogan "Kichute, o calçado do campeão" ecoava em cada campinho de terra batida do país.

CaracterĂ­sticas e funcionamento

O Kichute possuĂ­a caracterĂ­sticas tĂ©cnicas que o tornavam Ășnico e imediatamente reconhecĂ­vel:

  • Lona e Borracha: O corpo era de lona preta grossa, com biqueira e calcanhar reforçados. O solado era de borracha preta maciça com travas que, embora curtas, garantiam tração no barro ou no cimento.

  • Cadarços Longos: Uma das caracterĂ­sticas mais marcantes eram os cadarços excessivamente compridos. A "tecnologia" da Ă©poca ditava que eles deveriam ser amarrados com voltas ao redor do tornozelo (estilo chuteira de craque) ou sob o solado antes do nĂł final.

  • Cheiro CaracterĂ­stico: O Kichute tinha um odor forte de borracha nova que impregnava o quarto. E, apĂłs o uso intenso no sol, desenvolvia o famoso "chulĂ© de Kichute", que Ă© uma memĂłria olfativa compartilhada por toda uma geração.

  • ResistĂȘncia MecĂąnica: Ele nĂŁo descolava. A borracha era fundida Ă  lona de tal forma que o tĂȘnis geralmente "vencia" antes de estragar; o pĂ© da criança crescia e o Kichute continuava lĂĄ, inteiro.

Curiosidades

  • O Inimigo do Cimento: Embora fosse usado em quadras, as travas de borracha do Kichute faziam um barulho caracterĂ­stico de "nhĂ©ck-nhĂ©ck" no piso liso, e muitos diretores de escola proibiam seu uso dentro de salas com piso de taco de madeira para nĂŁo riscĂĄ-los.

  • Personalização: Era comum as crianças passarem graxa de sapato preta para manter o brilho ou usarem canetas corretoras brancas para pintar os detalhes do solado.

  • Kichute vs. Conga: Enquanto o Conga era visto como o tĂȘnis "social" ou de educação fĂ­sica leve, o Kichute era a "mĂĄquina de guerra" para o futebol sĂ©rio.

  • Item de Colecionador: Hoje, pares originais dos anos 70 e 80 em bom estado sĂŁo vendidos por centenas de reais para colecionadores de itens retrĂŽ e saudosistas da cultura vintage.

Declínio ou substituição

O declínio do Kichute começou na virada dos anos 80 para os 90. A abertura das importaçÔes trouxe marcas globais como Nike, Adidas e Reebok, que apresentaram tecnologias de amortecimento e materiais sintéticos muito mais leves e confortåveis.

O Kichute, com sua estrutura rígida e falta de ventilação, passou a ser visto como um calçado "bruto" e ultrapassado. As crianças começaram a desejar as chuteiras coloridas de seus ídolos modernos, que jå não usavam lona preta. Em meados dos anos 90, a produção diminuiu drasticamente, e a Alpargatas acabou descontinuando o modelo clåssico, embora ele ainda tenha feito breves retornos como item de moda cult anos depois.

ConclusĂŁo

O Kichute foi a chuteira da democracia brasileira. Ele nivelava todos no campo: do filho do mĂ©dico ao filho do operĂĄrio, todos usavam o mesmo calçado preto de cadarços longos. Ele representa uma Ă©poca de resistĂȘncia, de futebol de rua e de objetos que eram feitos para durar. 

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