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| Atendente de uma loja de loterias entrega o cartão perfurado do jogo a um cliente |
Origem e história
A ideia de usar cartões para controlar máquinas é mais antiga que o próprio computador. No início do século XIX, Joseph-Marie Jacquard criou um tear que utilizava cartões perfurados para criar padrões complexos em tecidos. No entanto, foi Herman Hollerith, no final da década de 1880, quem adaptou essa tecnologia para o processamento de dados estatísticos.
Hollerith enfrentava um desafio: o censo dos EUA de 1880 levou sete anos para ser tabulado manualmente. Com suas máquinas tabuladoras e cartões perfurados, o censo de 1890 foi concluído em apenas dois anos. O sucesso foi tão grande que a empresa de Hollerith acabou se tornando parte de uma fusão que, mais tarde, daria origem à gigante IBM.
Período de maior popularidade
Os cartões perfurados dominaram o mundo da computação entre as décadas de 1950 e 1970. Nas grandes empresas e órgãos governamentais, "programar" significava carregar caixas pesadas repletas de cartões para serem lidos por mainframes gigantescos que ocupavam salas inteiras.
No Brasil, o cartão perfurado ganhou um significado cultural adicional nos anos 70 e 80 através da Loteria Esportiva e da Mega-Sena. Quem não se lembra do ritual de marcar os quadradinhos com caneta preta e levar o cartão para ser "lido" pela máquina da lotérica? Aquela folha de papel bege era o contrato de esperança de milhões de brasileiros, tornando a tecnologia de perfuração algo presente no cotidiano popular, muito além dos centros de processamento de dados.
Características e funcionamento
O funcionamento era baseado na lógica da presença ou ausência de matéria:
O Formato IBM: O modelo mais famoso tinha 80 colunas e 12 linhas. Cada coluna representava um caractere (letra, número ou símbolo).
A Perfuração: Uma máquina chamada "perfuradora de cartões" (keypunch) criava furos retangulares em posições específicas.
A Leitura: O cartão passava por uma leitora que usava escovas metálicas ou sensores ópticos. Onde havia um furo, um circuito elétrico era fechado; onde não havia, a eletricidade era bloqueada.
O "Decks" de Cartões: Um programa de computador não era um arquivo, mas uma pilha de cartões. Se você derrubasse a pilha e perdesse a ordem, seu programa deixava de funcionar — um erro físico que causava pânico em qualquer programador da época.
Curiosidades
O Canto Cortado: Todo cartão perfurado tinha um dos cantos superiores cortado em diagonal. Isso servia para que o operador soubesse instantaneamente se algum cartão estava de cabeça para baixo ou invertido na pilha.
Chade: O pequeno pedaço de papel que sobrava após o furo era chamado de "chade". Grandes centros de computação produziam quilos de chade por dia, que muitas vezes eram usados como confete em festas de escritório.
Renda Extra: Cartões perfurados usados eram frequentemente doados para escolas e creches, onde as crianças os usavam para desenhos ou construções de maquetes, devido à rigidez do papel.
O "Bug" Original: Embora o termo venha de insetos em relés, cartões levemente úmidos ou com bordas amassadas eram os grandes vilões, causando o travamento das leitoras e erros de processamento.
Declínio ou substituição
O declínio dos cartões perfurados começou no final da década de 70 com a chegada das fitas magnéticas e, posteriormente, dos discos flexíveis (disquetes). Essas novas mídias eram muito mais rápidas, podiam ser regravadas (o cartão era descartável após o uso) e ocupavam uma fração do espaço.
No início dos anos 80, os terminais de vídeo permitiram que os dados fossem digitados diretamente na memória do computador, eliminando a necessidade de uma mídia física intermediária para cada linha de código. No entanto, na área das loterias e concursos públicos (gabaritos), a tecnologia de leitura óptica de marcas — uma evolução direta do cartão perfurado — ainda sobreviveu por muito mais tempo.
Conclusão
O cartão perfurado foi o alfabeto da primeira era digital. Ele transformou o abstrato em concreto e permitiu que a humanidade começasse a organizar informações em escalas nunca antes vistas. Culturalmente, ele foi o símbolo da modernidade burocrática e da sorte grande nas lotéricas.
