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| Elegância sobre rodas: a silhueta inconfundível que definiu a mobilidade urbana. |
Houve um tempo em que as ruas não eram dominadas por SUVs gigantes, mas pelo zunido característico dos motores de dois tempos e pelo brilho das carenagens arredondadas. A Lambretta foi o veículo que deu mobilidade às massas no pós-guerra, unindo o baixo custo de uma bicicleta com o conforto e o status de um automóvel. Com sua plataforma plana para os pés e seu design elegante, ela permitiu que homens de terno e mulheres de saia rodada navegassem pelo trânsito das metrópoles com uma classe que nenhuma outra motocicleta conseguia replicar. No Brasil, ela foi tão impactante que o nome da marca virou substantivo comum para qualquer motoneta.
Origem e história
A Lambretta nasceu na Itália, em 1947, na fábrica da Innocenti, localizada no bairro de Lambrate, em Milão (daí o seu nome). Assim como sua eterna rival, a Vespa, a Lambretta surgiu da necessidade de reconstruir a Europa com veículos baratos, econômicos e fáceis de produzir usando o que havia sobrado da indústria bélica.
O engenheiro aeronáutico Cesare Pallavicino e Pierluigi Torre desenharam a Lambretta com uma estrutura de chassi tubular, motor central e rodas pequenas. No Brasil, a história foi pioneira: em 1955, a Lambretta do Brasil tornou-se a primeira fábrica de veículos automotores do país, instalada na Lapa, em São Paulo, antes mesmo da chegada das grandes montadoras de carros alemãs e americanas.
Período de maior popularidade
A era de ouro da Lambretta no Brasil e no mundo compreendeu as décadas de 1950 e 1960. Ela se tornou popular por ser o veículo ideal da classe média emergente. Enquanto os carros eram caros e o transporte público ainda engatinhava, a Lambretta era a solução perfeita para o trabalhador urbano e o jovem universitário.
Nas cidades brasileiras, clubes de "lambreteiros" organizavam passeios e gincanas, transformando o veículo em um símbolo de sociabilidade. Modelos como a LI 150 e a LD tornaram-se objetos de desejo. Ter uma Lambretta na garagem era sinal de modernidade e de que você estava conectado com a sofisticação europeia que influenciava o cinema e a música da época.
Características e funcionamento
Diferente das motos convencionais, a Lambretta foi desenhada para ser limpa e prática:
Escudo Frontal e Assoalho: A carenagem frontal protegia o condutor contra o vento e a lama, e o assoalho plano permitia que os pés ficassem protegidos, evitando que as roupas sujassem de graxa.
Motor Central de 2 Tempos: O motor ficava escondido sob as carenagens laterais, gerando o som metálico clássico e exigindo a mistura de óleo na gasolina.
Câmbio no Punho: Uma das características mais marcantes era a troca de marchas feita com a mão esquerda, girando o punho do guidão junto com a embreagem.
Pneu de Estepe: A maioria das Lambrettas carregava um pneu reserva na parte traseira, um item essencial dada a qualidade precária das estradas e ruas da época.
Curiosidades
Guerra das Marcas: A rivalidade entre Lambretta e Vespa era o equivalente às torcidas de futebol. Os "lambreteiros" defendiam o chassi tubular e o motor central da Lambretta como sendo mais estável que o monocoque da rival.
Cultura Mod: Na Inglaterra dos anos 60, a Lambretta foi o ícone da subcultura Mod, onde jovens personalizavam suas máquinas com dezenas de espelhos retrovisores e faróis extras.
O Nome Virou Verbo: No Brasil antigo, era comum usar a expressão "lambretear" como sinônimo de passear ou dar uma volta rápida pela cidade.
Primeiro Carro da Família: Muitas famílias brasileiras começaram sua história motorizada com uma Lambretta, instalando muitas vezes um sidecar lateral para carregar a esposa e os filhos.
Declínio ou substituição
O declínio da Lambretta começou no final dos anos 60 e início dos 70. O surgimento dos carros populares (como o Fusca) e as facilidades de crédito fizeram com que as famílias preferissem o abrigo das quatro rodas. Além disso, a chegada das motocicletas japonesas (como a Honda CG que vimos no post 56), com motores de quatro tempos mais silenciosos e potentes, mudou a preferência do público.
A fábrica brasileira encerrou suas atividades em meados dos anos 70, e a Innocenti na Itália parou de produzir as Lambrettas originais em 1972, vendendo o maquinário para a Índia (SIL). Hoje, a Lambretta vive um renascimento como item de colecionador e através de novos modelos modernos que tentam capturar aquela silhueta clássica.
Conclusão
A Lambretta não foi apenas uma motoneta; foi a tradução da elegância mecânica. Ela representou a liberdade de uma geração que queria desbravar a cidade sem perder a pose. No Brasil, ela abriu as portas da nossa indústria automotiva e deixou um rastro de fumaça azulada e boas memórias em cada esquina.
