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| O inconfundível tablete envolto em papel verde: um símbolo das manhãs simples e saborosas de antigamente. |
Se você viveu as décadas de 70, 80 ou o começo dos anos 90, especialmente nas manhãs frias do Rio Grande do Sul, provavelmente guarda uma cena muito familiar na memória: o brilho do papel-alumínio verde sendo aberto devagar e aquele aroma característico surgindo quando a faca passava pelo bloco gelado. Antes dos potes plásticos dominarem as geladeiras, o café da manhã tinha um ritmo mais calmo, quase ritualístico. E a Margarina Primor em tablete fazia parte desse cenário como poucos produtos conseguiram fazer.
Mais que um alimento: um símbolo de época
Muito antes da internet ocupar nossa atenção e dos supermercados oferecerem dezenas de versões “light”, “cremosa” ou “aerada”, o café da manhã brasileiro era simples, mas cheio de personalidade. No Sul do Brasil, a margarina em tablete não era apenas algo para passar no pão. Ela fazia parte da rotina da casa.
Era impossível não reconhecer aquele bloco retangular firme, envolto em papel metalizado verde e prata. Abrir a embalagem já fazia parte da experiência. Depois vinha o pequeno desafio: cortar a fatia perfeita para espalhar no pão quente sem despedaçar tudo.
Quem viveu essa época provavelmente lembra da textura exata: firme na medida certa, principalmente nos dias frios, quando a margarina parecia quase uma pedra recém-saída da geladeira.
A origem da margarina no Brasil
A margarina surgiu originalmente na França, ainda no século XIX, como uma alternativa mais acessível à manteiga. No Brasil, ela começou a ganhar força industrial em meados do século XX, acompanhando a modernização da alimentação urbana.
A marca Primor acabou se consolidando como uma das mais populares do país, especialmente no Rio Grande do Sul. O formato em tablete ajudava nessa identidade. Ele lembrava os tradicionais blocos de manteiga colonial vendidos antigamente, transmitindo uma sensação de produto mais “caseiro” e consistente.
Durante muitos anos, praticamente toda cozinha brasileira tinha um desses tabletes guardados na geladeira.
O auge nas décadas de 70 e 80
Foi entre os anos 70 e o final dos anos 80 que a margarina em tablete viveu seu auge absoluto. Os comerciais de televisão reforçavam aquela imagem clássica da família reunida à mesa, com pão fresco, café passado na hora e a margarina sendo servida logo cedo.
Para muita gente, a Primor em tablete ficou associada ao sabor da infância e à cozinha da avó. Existia até um certo cuidado carinhoso com o produto. Depois de usar, era comum dobrar novamente as pontinhas do papel-alumínio para evitar que a margarina ressecasse ou absorvesse cheiro da geladeira.
O simples ato de abrir o papel verde acabava funcionando como um aviso silencioso de que o dia tinha começado
Como era usar a margarina em tablete
Diferente das margarinas ultra-cremosas de hoje, o tablete tinha uma consistência bem mais firme. Era preciso usar a faca para raspar ou cortar pequenas lascas antes de espalhar no pão.
Se estivesse gelada demais, quebrava em pedaços. Se estivesse no ponto certo, derretia suavemente sobre o pão quente, formando aquela camada brilhante e amarelada que muita gente ainda lembra com clareza.
Pode parecer exagero hoje, mas existia quase uma “técnica” para usar a margarina corretamente nas manhãs frias do Sul.
Curiosidades que muita gente esqueceu
Unidade de medida culinária
Antigamente, várias receitas usavam o próprio tablete como referência:
- “Meio tablete”
- “Um quarto de tablete”
- “Um tablete inteiro”
Era uma medida tão comum quanto xícara ou colher.
O famoso papel verde
A embalagem era tão marcante que muita gente reconhecia a Primor apenas pela cor do alumínio na prateleira do mercado.
O verde metálico virou praticamente parte da identidade visual afetiva do produto.
O declínio do tablete
Nos anos 90, os potes plásticos começaram a dominar as geladeiras brasileiras. A praticidade falou mais alto.
A margarina cremosa podia ser usada imediatamente, sem precisar cortar ou esperar amolecer. Além disso, os potes ainda ganhavam uma segunda vida dentro de casa: guardar feijão, arroz, molho ou qualquer sobra de comida.
A conveniência venceu o charme do tablete.
Pouco a pouco, aquele bloco envolto em papel-alumínio foi desaparecendo das prateleiras principais dos supermercados.
Ela ainda existe hoje?
De certa forma, sim.
A versão clássica de 200g embrulhada apenas no papel-alumínio verde deixou de ser o foco principal, mas o formato em tablete ainda sobrevive em linhas voltadas para culinária, como a “Forno & Fogão”, vendida em embalagens com pequenos tabletes.
Hoje, a marca Primor pertence à Seara, do grupo JBS, que continua mantendo o nome vivo nas prateleiras brasileiras
Mesmo modernizada, muita gente ainda bate o olho naquele formato e sente imediatamente o gosto das manhãs antigas.
Um pedaço simples da memória brasileira
A Margarina Primor em tablete talvez pareça apenas um detalhe doméstico para quem olha hoje. Mas ela representa muito mais do que um alimento.
Ela lembra uma época em que o café da manhã acontecia sem pressa, em que pequenos hábitos criavam memórias duradouras e em que objetos simples acabavam ganhando valor afetivo enorme dentro das famílias.
Às vezes, basta lembrar do brilho daquele papel verde para uma cozinha inteira do passado voltar à memória.
E você, lembra dessa época?
