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| Costume antigo de cobrir espelhos em dias de temporal |
Era comum acreditar que certos gestos simples podiam afastar o azar ou proteger a casa. Se você viveu os anos 60 ou 70, certamente lembra de ver sua avó cobrindo o espelho da sala quando o céu escurecia e os raios começavam a riscar o horizonte. Essa cena, tão típica do cotidiano brasileiro, é um retrato fiel de uma época em que crendices populares faziam parte da rotina — uma mistura de fé, medo e tradição que moldava o comportamento das famílias.
Hoje, essas práticas viraram pura nostalgia, mas continuam fascinando quem gosta de revisitar o passado e entender como o Brasil se relacionava com o desconhecido.
Origem e História
As crendices populares têm raízes profundas na formação cultural brasileira. Vieram da fusão entre tradições indígenas, costumes africanos e superstições europeias trazidas pelos colonizadores. No interior do país, onde o acesso à informação era limitado, essas crenças serviam como explicações simbólicas para fenômenos naturais e como formas de proteção espiritual.
Cobrir espelhos durante temporais, por exemplo, tinha origem na crença de que o vidro refletia a energia dos raios e poderia atrair descargas elétricas. Outros acreditavam que o espelho era uma “porta” para o mundo espiritual, e que os relâmpagos poderiam “abrir” essa passagem.
Era muito comum na época ouvir histórias de vizinhos que juravam ter visto vultos ou luzes estranhas refletidas em espelhos durante tempestades — e isso bastava para reforçar o costume.
Período de Maior Popularidade
Entre as décadas de 1960 e 1970, o Brasil vivia um período de transição: o rádio ainda reinava, a televisão começava a se popularizar e as cidades cresciam rapidamente. Mesmo assim, nas casas simples, especialmente nas zonas rurais, as crendices continuavam fortes.
Quem viveu essa fase dificilmente esquece o cheiro de chuva misturado ao café recém-passado, o som dos trovões e o gesto automático de alguém cobrindo o espelho com um lençol branco. Era um ritual quase sagrado, repetido sem questionar.
Essas práticas eram passadas de geração em geração, e mesmo quem não acreditava seguia o costume “por via das dúvidas”.
Características e Funcionamento
O “funcionamento” das crendices era simples: bastava acreditar. Cada superstição tinha seu próprio “manual” informal.
Cobrir espelhos: proteção contra raios e espíritos.
Colocar faca no chão: “cortar” a chuva.
Virar o chinelo: sinal de respeito, para evitar azar.
Bater na madeira: afastar o mau-olhado.
Esses gestos eram pequenos rituais cotidianos, feitos com naturalidade. Não havia tecnologia envolvida — apenas fé e tradição.
Em tempos sem internet, o conhecimento era transmitido oralmente, e cada região adaptava suas crenças conforme o ambiente e as histórias locais.
Curiosidades
No Sul do Brasil, cobrir espelhos era quase obrigatório em dias de temporal.
No Nordeste, acreditava-se que colocar sal atrás da porta afastava visitas indesejadas.
No Sudeste, muitas famílias evitavam abrir guarda-chuva dentro de casa, por medo de atrair má sorte.
Algumas crendices tinham explicações científicas disfarçadas: cobrir espelhos realmente podia evitar reflexos que assustavam durante relâmpagos intensos.
Havia também o lado poético — os espelhos cobertos simbolizavam o recolhimento e o respeito pela força da natureza.
Esses costumes, embora simples, revelam muito sobre o imaginário coletivo brasileiro e sobre como o medo e a fé se misturavam no cotidiano.
Declínio ou Substituição
Com o avanço da tecnologia e da informação, as crendices começaram a perder espaço. A chegada da televisão, da eletricidade segura e da educação científica transformou o modo como as pessoas viam o mundo.
Hoje, em vez de cobrir espelhos, usamos para-raios e disjuntores. A fé deu lugar à física, mas o encanto das antigas superstições permanece.
Ainda assim, em muitas casas do interior, esses costumes resistem — não por medo, mas por tradição. É uma forma de manter viva a memória dos antepassados e o respeito pelas histórias que moldaram nossa cultura.
Conclusão
Relembrar as crendices populares dos anos 60 e 70 é como abrir uma janela para o passado. Elas nos mostram um Brasil mais simples, onde o medo dos raios se misturava à fé e à imaginação.
Hoje virou pura nostalgia, mas também um lembrete de que a tecnologia pode mudar tudo — menos o valor das lembranças.
E você, lembra disso?
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