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| A simplicidade mecânica do motor 2 tempos |
Se você viveu os anos 70 ou 80 no Brasil, certamente se lembra do som característico de um
motor de dois tempos "estralando" pela vizinhança. Antes da era dos carros populares
financiados em mil vezes e da onipresença das motocicletas modernas de alta cilindrada, existia
uma categoria de veículos que era o sonho de liberdade de muitos jovens e a solução prática de
transporte para trabalhadores: as ciclomotores, popularmente conhecidas como
"cinquentinhas". Entre elas, nomes como Gullivette e Leonette evocam uma era de
simplicidade e mecânica pura.
Essas máquinas não eram apenas veículos; eram passaportes para a independência. Você
lembra disso? Ver uma dessas encostada na calçada era sinal de que alguém ali estava à
frente do seu tempo, driblando o trânsito com economia e um estilo retrô que, hoje, nos faz
suspirar de saudade.
Origem e História
A linhagem dessas pequenas notáveis remete ao pós-guerra europeu, mas no Brasil, elas
ganharam alma própria. A Leonette, por exemplo, teve uma trajetória marcante ligada à indústria
nacional que buscava motorizar o país de forma acessível. Elas surgiram da necessidade de um
meio de transporte que fosse um degrau acima da bicicleta, mas muito mais barato que um
automóvel ou uma moto de grande porte.
A Gullivette, com seu design clássico de quadro aberto (estilo step-through), permitia que
qualquer pessoa pilotasse com facilidade, inclusive mulheres usando saias, o que era um
diferencial de marketing na época. Elas utilizavam motores importados ou licenciados, muitas
vezes de origem italiana ou alemã, conhecidos pela durabilidade e pela facilidade de
manutenção. Era muito comum na época ver essas ciclomotores sendo montadas em
pequenas fábricas que adaptavam os projetos às condições das estradas brasileiras.
Período de Maior Popularidade
O auge dessas máquinas ocorreu entre o início da década de 70 e meados dos anos 80.
Naquela época, o Brasil passava por transformações urbanas aceleradas. A Gullivette 1972,
com seu tanque arredondado e linhas minimalistas, representava o início dessa febre. Já a
versão de 1980 trazia um visual mais robusto, com cores vibrantes como o vermelho e detalhes
em preto, refletindo a estética mais arrojada da nova década.
Quem viveu essa fase dificilmente esquece o cheiro da mistura de óleo dois tempos com
gasolina no posto. Ter uma Leonette era o ápice da conveniência. Elas eram as rainhas das
cidades do interior e dos bairros operários. Hoje virou pura nostalgia, mas naquele tempo,
eram ferramentas essenciais de trabalho e lazer.
"A sensação de vento no rosto a 40 km/h em uma Gullivette parecia muito mais veloz do
que qualquer carro moderno hoje em dia."
Características e Funcionamento
O funcionamento era a simplicidade em estado puro. O motor, geralmente de 50cc (daí o apelido
"cinquentinha"), operava no ciclo de dois tempos. Isso significa que a lubrificação vinha
diretamente da mistura combustível. O usuário precisava adicionar uma medida precisa de óleo
2T à gasolina — uma tarefa que todo proprietário dominava com orgulho.
Muitas dessas ciclomotores possuíam pedais. Sim, pedais de bicicleta! Eles serviam para duas
funções: ajudar o motor em subidas muito íngremes ou "dar a partida" no veículo. Bastava
pedalar um pouco, soltar a embreagem e vrum, o motor despertava. A transmissão era simples,
muitas vezes automática ou com duas marchas manuais no punho, o que tornava a pilotagem
extremamente intuitiva.
Curiosidades
Bicicletas Adaptadas: Atualmente, é fato que vivemos um "renascimento" desse
conceito. Muitas bicicletas comuns são adaptadas com kits de motores 2T ou 4T vendidos
na internet, tentando emular a experiência econômica das antigas Gullivettes, embora as
originais tivessem quadros muito mais resistentes.
Nomes Regionais: Dependendo da região do Brasil, essas máquinas eram chamadas
apenas de "mobylette" (devido à marca da Caloi), "puch" ou "gasolina".
Cultura do "Grau": Embora hoje o termo seja associado a motos potentes, a cultura de
personalizar e cuidar excessivamente das pequenas ciclomotores começou com a
geração Leonette.
Declínio ou Substituição
O declínio começou no final dos anos 80 e se intensificou nos anos 90. Mudanças na legislação
de trânsito exigiram habilitação específica (ACC) e emplacamento, o que tirou um pouco da
liberdade "informal" que essas máquinas ofereciam. Além disso, a chegada das motocicletas
japonesas de 100cc e 125cc, com motores de quatro tempos mais limpos, silenciosos e potentes,
acabou por aposentar as velhas guardiãs de fumaça azul.
A indústria automobilística também se tornou mais acessível, e o sonho do "carro próprio"
acabou ofuscando o brilho das ciclomotores, que passaram de itens desejados a peças de
colecionador.
Conclusão
Olhar para uma Gullivette 1972 ou uma Leonette 1980 é fazer uma viagem no tempo. Elas
representam um Brasil mais lento, onde a mecânica era compreensível e a liberdade cabia em
um tanque de cinco litros. Elas não eram apenas máquinas; eram membros da família,
companheiras de trabalho e cúmplices de primeiras aventuras juvenis. Embora as ruas hoje
estejam cheias de tecnologia, nada substitui o charme e a memória afetiva dessas valentes
cinquentintas.
E você, lembra disso? Teve alguma história marcante com uma dessas máquinas ou
conhece alguém que não saía de cima de uma Leonette?
Se bateu aquela nostalgia, aproveite para explorar outros conteúdos aqui do blog. Tem
muita história interessante escondida em objetos simples do passado!
